quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Susana e o Palhaço

        Susana era bonita, tinha o caminhar elegante, uma pele de vincos fundos que a marcavam, dona de expressões fortes e sobrancelhas marcantes. A casa estava vazia como sempre, Susana mais parecia um ponto, um objeto de decoração. De tão bela adornava aquele apartamento, assim como a réplica de Miró que tinha na sua parede da sala, também como a foto de Marilyn Monroe em seu quarto, e seus livros de arte, cinema, filosofia, tudo era enfeite e nada se sobrepunha. Parecia uma exposição de arte, de vida, uma exposição do que Susana queria expor. Da cozinha, Susana vê que o circo chegou. Vai ao banheiro, se olha no espelho, ajeita o cabelo, toma um banho e se veste: meia-calça fina, uma blusa preta, uma saia azul, sapatos, brincos, cabelo preso e batom vermelho. Coloca os óculos escuros, apesar de o sol estar se pondo. Volta à cozinha, toma um gole de café, olha o circo pela janela, sorri, pega a carteira e sai.
Caminha rápido como se quisesse chegar logo e viver tudo aquilo logo para ver se a sua outra dor passava. A tenda estava armada não muito longe dali, e ela caminhava olhando para ela colorida, cheia de luzes ainda apagadas, feia e suja. Era um circo velho, com poucos recursos, no meio de um terreno que nunca era usado, o chão de cascalho e o letreiro com algum nome tosco que Susana não parou para olhar. Quando chegou até o local, Susana percebe que não era apenas um circo, mas que a companhia tinha levado também um carrossel, uma sala de espelhos e um show da “Monga - A Mulher Gorila”. Olha no relógio: ainda era cedo. Vai à bilheteria, havia um homem alto, magro e com cara de cansado lá dentro:
_ Uma entrada para o circo, um ingresso para o carrossel e um para a sala de espelhos, por favor - diz Susana.
_ Não quer ver a transformação, dona? - diz o homem ainda de costas, ao que Susana responde sem pensar muito: “Não, não. Só o carrossel e a sala de espelhos já me divertem bastante antes do seu espetáculo.”
O homem, que até então estava de costas, se vira de frente e diz: “O MEU espetáculo não seria nada sem você. Aqui estão, tudo dá nove reais.” Susana sorri gentilmente, tira dez reais de dentro da carteira, os entrega ao homem e diz: “Fica com o real que sobrou.” O homem olha o dinheiro, sorri e se vira de costas - só havia ela na fila. Então ela se senta num banco, ajeita o sapato, passa a mão no cabelo e as pessoas começam a chegar. Em dois segundos uma fila se forma na bilheteria, Susana compra uma pipoca doce e vai para o carrossel. Sobe no brinquedo, escolhe um lugar, se senta de lado e volta a comer sua pipoca, só haviam ali por enquanto crianças e mães. Susana nunca havia sido mãe, mas achava bom ver a relação entre esses dois seres - lhe parecia verdadeiro como poucas coisas pareciam. O mundo era de plástico para Susana, os copos eram de plástico, os garfos, chuveiros, tintas, comidas, eles e elas, ela própria era de plástico. Então o brinquedo começa a rodar, e ela também e a subir e descer num ritmo que lembra uma balada. Ainda faltavam duas horas pra começar o espetáculo.
Ela fecha os olhos e abre. Fecha e abre. Fecha e abre. Fecha, abre e vê algo estranho. O ritmo mudou, está rápido demais. Susana vê coisas das quais ela parece lembrar. Um homem segurando uma menina na altura da cintura, mas sem amor nenhum. Uma mulher vestida de azul numa luz vermelha. Um homem ao piano com uma garrafa de vinho. Alguém sentado de costas e que parece perdido, melancólico. De repente tudo volta ao normal. Ela pensa que deve ter tido uma baixa na pressão, se escora no cano do seu cavalo no brinquedo. O carrossel continua girando devagar, Susana se perde olhando para um casal que parece apaixonado: ele brinca com o cabelo dela, enquanto ela fica vermelha e olha para os lados e dá um beijo nele e sai correndo - eram jovens, adolescentes. E tudo fica surdo por alguns instantes, mas ela não presta atenção nisso, apenas continua inerte no carrossel. A pipoca acabou, ela não sabia mais há quanto tempo estava ali.
Desce do carrossel e se senta no mesmo banco se sentindo um pouco fatigada. O homem da bilheteria se aproxima dela e diz: “Gostar do circo não é fácil.” Ela responde sem prestar muita atenção: “Imagino”. Ele: “O circo é minha casa, mas nem sempre foi assim. Já tive mulher e filhos, agora tenho um milhão deles e delas os quais eu nem conheço e não vou ter a oportunidade de conhecer”. Susana gargalha. “Está rindo de mim?” Susana continua gargalhando, mas não sabia do que ria. “Que dó.” é o último comentário do homem e ele sai despretensiosamente, sem raiva, sem expressão. Susana limpa as lágrimas do riso, se levanta e parte para a tenda. 
Entra, se senta num lugar meio termo, nem perto, nem longe do picadeiro. Tinha medo de ser tomada como alvo do espetáculo, gostava de circo, mas sempre a uma distância segura. Pega o ticket da sala dos espelhos e guarda na carteira. As crianças começam a entrar, também os casais, as mães chegam com as pipocas, a luz cai. Susana não enxerga, nem ouve mais nada, apesar de achar estranho o circo não possuir uma vinheta, continua firme, não se apavora. Entra o Monsieur: “Respeitável público!” e Susana fica surda de novo e então começa a gargalhar e escuta a sua risada, só a sua risada. E então, ainda gargalhando, tudo parece passar em flash e ela escuta a música do circo constantemente. Parece se divertir, mas não entende nada. Trapezistas, contorcionistas, chimpanzés, mágicos e os palhaços. Finalmente, os palhaços. Uma dupla, como de costume: o gordo e o magro, o triste e o alegre, o forte e o fraco, o esperto e o bobo. Mas ali só havia um. Susana mantém o sorriso no rosto, não consegue parar de olhar aquela figura. 
Um palhaço alto, magro, nariz vermelho de tanto chorar, uma flor que espirra água no bolso direito da camisa, sapatos que não são seus, roupas desproporcionais, cabelo e barba por fazer, mas ainda assim um sorriso estampado no rosto e uma lágrima numa das bochechas. Os olhos marcados e a sobrancelha grossa: enfim, um palhaço. Ele está fazendo um número bobo: abre uma porta, passa por ela, fecha a porta, mas sua roupa fica presa, então, ele não consegue andar. Faz isso por umas três vezes, então resolve o problema e de tão feliz, tropeça e cai de bunda no chão. Susana volta a gargalhar, alto, muito alto, mais alto que todo mundo. O palhaço, então, a busca na platéia. Ela faz que não. Ele olha para ela, ela se rende ainda rindo. Enquanto andam para o picadeiro ele diz: “Gostar do circo não é fácil.” Ela olha para ele e ri. Ele entrega uma caixa para ela segurar e a pede para esperar, mas Susana não consegue parar de rir. Ele faz cara de quem não está entendendo para o público, faz como quem procura alguma coisa que só Susana vê, ele não está entendendo de verdade. Então pede para ela chutar seu traseiro, ela faz que não, ele insiste e gesticulando explica: ela chuta o traseiro dele, ele cai numa gangorra e algo mágico acontece. Susana aceita, ainda rindo chuta o traseiro do palhaço, ele cai na gangorra: a caixa abre, salta de dentro um bicho, Susana se assusta e um balde d’água cai sobre ela. Susana gargalha, gargalha, gargalha, gargalha, senta no chão para gargalhar. Está chorando de rir literalmente. O circo gargalha junto, o riso do circo é falso. A música continua marcando a decadência. A alegria e a tristeza no mesmo espaço. Susana ri na cara da desgraça. O palhaço a olha sério, com compaixão e abre um sorriso por detrás do seu sorriso de palhaço. Ela continua sentada rindo, ele olhando para ela. Ele a busca pela mão e a devolve ao seu lugar, ela ainda está gargalhando. O circo parece ter sumido. Para Susana só ela está de frente para o picadeiro agora e continua rindo, descontrolada. A luz cai e reacende sem os holofotes para o picadeiro. O espetáculo acabou por enquanto.
Ao sair da tenda, com a maquiagem toda borrada e a roupa toda molhada, Susana se depara com o palhaço na porta do circo. Ele tira uma flor de trás de sua orelha e entrega para ela, a flor esguicha água na cara de Susana. Ela volta a gargalhar. Ele se vira e sai. Ela vai atrás dele meio desesperada, sem rumo e o puxa para a sala dos espelhos. Eles brincam de aumentar e diminuir. Estão agora como num caleidoscópio gigante, ela olha aquele palhaço meio boba, sorrindo e rindo de si mesma e dele. Ele mostra como ela é tosca, como ele é tosco, como os espelhos refletem verdades e mentiras. Susana agora se vê como ela é: deformada. O palhaço está atrás dela completamente desforme também. Naquele momento ela o ama e ri, mas ri com toda a sua verdade e com toda a sua mentira. Chora de rir mais uma vez, gargalha alto dela mesma e daquele palhaço estúpido. Ela o beija. O sorriso vermelho dele fica no rosto dela, as mãos brancas da pasta d’água do rosto do palhaço e a lágrima negra gravada na maçã do rosto de Susana, que ainda está com a maquiagem escorrida e o cabelo desgrenhado, mas não se importa. Sai da sala de espelhos e caminha, como quem volta de uma festa ao amanhecer - era noite.
Ela volta para casa. Se senta no sofá e ri. Susana ri tão alto que sua carne sabe que Susana mente que não sente a solidão de estar tão só.

(inspirado em "Diga a Susana" - obrigada a você)

domingo, 12 de setembro de 2010

Micro conto da história da não-luz

Ínsipida e inodora é a luz que aguça os olhos e ele a esperava impacientemente sentado na sala de frente pra janela desde a meia noite. Colocou na cabeça que queria saber o gosto do tom amarelo, vermelho e alaranjado que tem a luz do dia. Queria saber qual é o cheiro do dourado. E escutar as cores quentes daquele sol de inverno lhe falarem porque estavam tão frias naquele ano. Passou um dia inteiro ali prostrado. Falha tentativa. Tentou num segundo dia. Falha a segunda tentativa. Tentou num terceiro dia. E concluiu que o sol o condenou por lhe faltarem nos olhos a sensibilidade de perceber que o calor das cores quentes já tinha penetrado pelos seus poros, por isso o deixou com a frieza do azul e do anil, do verde e do violeta. Mal tratado e sem malícia. Ele usava olhos de vidro e enxergava em preto e branco o mundo de berço já sem cor daquele cego sem alma.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Boa Atriz

Quanto tempo tem que já passou?
Eu ainda não contei as horas
Traz uma bebida e um cigarro
Pra ver se o ponteiro anda agora
Canta aquela música pra mim
enquanto o vento passa pela sala
Varre essa poeira que ficou
de quando minha casa era uma mala


Quanto tempo ainda não demora
pra você enfim ficar contente?
Senta do meu lado agora e chora
lágrimas de um passado incongruente
Fita os meus olhos e me devora
com uma dor lasciva e latente
Apesar de todo o tempo que já tem
esse caos continua impertinente
Traz outra bebida e mais cigarro
Põe os pés no chão e abre os olhos
Pega na minha mão e me acompanha
que ainda há tempo pra gente

terça-feira, 18 de maio de 2010

Arquitetura

O reflexo deformado
transparece a imperfeição
do rosto desalmado
São curvas e traços
fodidos e quebrados
que mostram o cansaço
da busca infinita
noite à dentro bandida
pelos braços e afagos,
carinhos cansados,
conversas sem nexo,
amores deixados,
que terminam em sexo.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Solidão, Som Surdo

A imagem não chama atenção
O som é incômodo
Não há ninguém na sala
além dela.
Cega, surda, muda
mastiga, engole, bebe,
engole seco
O seu silêncio incomoda
sofre uma dor sádica
não pensa, não raciocina
vítima, vitimista, vitimada
chantagem, chantagista, chantageada
chora, escorre,
enxuga com as costas das mãos
A TV saiu do ar
há um tempo ela é só chiado
Cega, surda, muda
mastiga, engole, bebe
engole o choro
E segue inerte