Naquela noite Sônia se sentia como se estivesse presa por um fio que a segurava do alto e a mantinha em pé. Caso contrário estaria deitada, completamente exposta em qualquer lugar. Não importava muito se estaria numa rua movimentada, num campo onde não houvesse ninguém, ou mesmo em seu apartamento, que hoje - só por hoje, ela dizia a qualquer um que entrava lá - estava sujo. Sônia praticamente já não conseguia se manter em pé. Estava cansada do barulho que vinha da rua, de ter que se levantar todos os dias da cama, tomar banho, escovar os dentes, tomar um café aguado, comer qualquer coisa, escovar os dentes de novo, escutar mais barulho, ir para a rua, chegar à um lugar comum-qualquer e continuar a escutar coisas que não queria, que não lhe interessavam, que não faziam sentido algum. Estava cansada de não ter para onde ir, estava cansada de ter que ficar. Já era tudo tão mecânico, que nem se dava ao trabalho de falar, então, ficava calada e só escutava e depois evacuava. Jogava tudo no lixo ou coisa que o valha. A vida privada era tudo que ela tinha. E que vida. E que privada. Cheia de dejetos e objetos estranhos que nem ela conseguia olhar. Era tanta inutilidade, tanta luta, tanta guerra, tanto horror e tanto glamour, era tudo tanto que ela não sabia mais o quanto aquilo era dela, o quanto era dos outros e o quanto era do mundo. Ela tinha se tornado inorgânica, sentia-se plástico não-reciclável, incômodo, colorido, tão colorido que ofuscava os olhos dos outros e os seus próprios e já não aguentava mais aquela cegueira.
Sentada de frente para a penteadeira colocou os cílios postiços, a peruca, o glitter dourado e azul, desenhou as sobrancelhas arqueadas, como de quem é dona de si e do mundo. Vestiu a meia calça, colocou o sutiã e o preencheu com o enchimento e se olhou no espelho. Que aberração. De dia Raul, de noite Sônia Silvana, nem o nome era bom. Fingindo que não se importava colocou o vestido dourado que nem tivera tido o trabalho de passar naquela noite. Colocou os brincos, passou um batom vermelho bordô e se olhou no espelho para checar se não era mais Raul que estava ali. Tinha cansado de ter que checar isso também. Era hora de entrar no palco. Entrou, foi aplaudida. Aplausos redentores, que a redimiam de diante do sol ser um e diante dos holofotes ser outra. Fez o show habitual, brincou com algumas pessoas que estavam mais perto. O show havia acabado. Voltou ao camarim e se olhou no espelho. Raul estava ali. Sentou se olhando no espelho atônita. Ele não havia a deixado nessa noite. Pegou a bolsa que estava do lado, achou a caixinha de negativos que sempre levava lá dentro. Abriu e tirou um saquinho de cocaína. Preparou uma carreira e cheirou. Olhou de novo para o espelho. Ele ainda estava ali. Trancou a porta e se sentou de frente para o espelho mais uma vez. Não se cansava de olhar para seus dois “eus”.
Muito tempo depois ainda estava sentada na mesma posição entre suas carreiras de pó e dúvidas. Queria saber, estava cansada e queria uma resposta. Era Raul ou era Sônia? Não queria mais duvidar, não queria mais as desconfianças, não queria ter que dar uma satisfação ao mundo. Colocou o camarim a baixo com raiva pela interrogação, pelo medo, pela opressão. Derrubou a penteadeira, jogou no chão os potes de maquiagem, os pincéis, os vestidos. E então Sônia saiu dali de dentro travestida de Raul em meio a olhares assustados nos corredores de dois ou três colegas de trabalho que estavam por ali.
Foi ele quem pegou aquela bicicleta que estava na rua e que começou a pedalar sem rumo. Quando Raul se olhou viu seu corpo de Sônia. Estavam naquela ponte às 5h da manhã, debaixo de um céu cinza-sem-cor de mais um dia sem graça e cansado amanhecendo. Despiu-se e se deixou. Cobriu seu sexo. E sentiu vergonha. Abaixou a cabeça e caminhou para o canto onde era o lugar deles, mesmo sem saberem se estavam realmente convencidos disso. Então, se colocaram nas pontas dos pés, cortaram o fio que os pousava no chão e caíram juntos, num choro que nada mais era que angústia e desespero, no meio de um mundo caos organizado por linhas retas infinitas. Um mundo padrão, de leitura simples no seu extra-corpóreo limitado que não conseguia se encaixar entre verticais ou horizontais. E ficou atravessado ali por um tempo. Mas antes das 7h, já que o dia que começava era uma terça e logo o movimento ia ficar pesado, Raul e Sônia se levantaram ainda cansados, recolheram suas coisas, Raul se vestiu enquanto Sônia se olhava e subiram na bicicleta... Ainda tinham que devolvê-la antes de voltar para casa.